A
disputa eleitoral iniciou bem antes dos 90 dias de campanhan quando teve início a fase
de formação das chapas de candidatos a prefeito e vice. Aqui inicia a formação
de uma chapa alinhando um candidato relativamente popular, o vereador Amauri
Ribeiro, e um candidato que representa a elite local, Donizete Peixoto. Essa
talvez fosse uma chapa imbatível se não fosse o revanchismo do PMDBista
Naudiomar Elias, que fora Prefeito de Piracanjuba na gestão 2004/07 e perdera a
ultima eleição para o então prefeito Ricardo de Pina.
A entrada do PMDBista criou uma nova
conformação excluindo Amauri Ribeiro da coligação e criando uma chapa politicamente
forte, alinhando a experiência de Naudiomar Elia, ex-prefeito e ex-secretário
do estado, com o poder econômico da elite local personificada na figura do seu
vice Donizete Peixoto. Amauri ficou sem coligação, sem partido, sem apoio, sem
vereadores e aqui tomou uma decisão inesperada. Mesmo com todas as condições
contrárias lançou candidatura solo pelo partido PRP, um partido até então com
pouca expressividade no município, e levando consigo como vice Cladiney
Machado, um lavrador politicamente desconhecido. Também se formaram outras
3 chapas totalizando 5 candidatos a prefeito.
Iniciado o período eleitoral em 6 de julho,
os candidatos iniciam a fase de preparativos para colocar as campanhas nas
ruas tendo em vista a proximidade da tradicional Festa de Agosto ou Festa
da Padroeira Nossa Senhora d´Abadia que é a maior aglomeração de pessoas do ano.
Naquele momento a população toma conhecimento de quem são os candidatos e o
clima é de supremacia e de grande distanciamento entre o candidato PMDBista de
todos os demais e o que se vê nas ruas é uma total desacreditação com relação à
possibilidade de que qualquer um dos outros candidatos possa colocar em risco a
sua vitória tida como certa pela maioria. Mas mesmo assim os mais experientes
em analise política observam que a conjuntura não é tão favorável ao PMDBista e
pode mudar.
Naudiomar inicia a campanha tendo que se
explicar um processo de improbidade administrativa, que ainda em
curso, não o impede de se candidatar às eleições e convence a opinião popular.
Amauri sofre com a falta de apoio político, falta de recursos financeiros para
a campanha e um relativa impopularidade devido à má fama de brigão devido às frequentes discussões travadas na Câmara contra
diversos vereadores e principalmente contra o então prefeito Ricardo de Pina. Nesse
momento, aproveitando a fragilidade da campanha, até tentaram comprar o apoio
do Amauri com cargos administrativos, oferta esta recusada por ele mostrando
coerência com seus princípios.
Também desponta como elegível o
candidato Marcão da base aliada ao então prefeito e ao governador do estado.
Seguido de por Doriocan, que aguardava a movimentação dos outros candidatos
para só então lançar sua estratégia de campanha, e Marconi, que apresentou uma
campanha tímida do início ao final.
A estratégia adotada por Naudiomar foi de
tentar manter impressão de superioridade até o fim das eleições. Mas teria que segurar, a qualquer custo, o
ponteiro no máximo nos próximos 90 dias. A única forma de o candidato Amauri
Ribeiro virar esse jogo era apostar numa campanha viral, sem grandes recursos
financeiros, apostou no voluntariado e na força das redes sociais.
Mas para isso precisou cortar alguns
limões. O primeiro passo foi criar uma Fanpage no Facebook e usá-la para
desmentir alguns boatos que vinham denegrindo a sua imagem. O principal deles
que era a fama de brigão. Mas ao esclarecer melhor, todos perceberam que as
discussões calorosas ocorridas na câmara foram para defender o decoro, a ética,
a licitude e o orçamento público. Brigou sim, mas sempre foi para o bem do
município.
Assim foi a receita da primeira limonada
que com sucesso revelou que a imagem do “moço brigão” era na verdad de “defensor da ética”.
E com isso ganhou a adesão dos primeiros voluntários, cerca de 30 pessoas, na
maioria visionários sem nenhuma experiência política anterior, que entraram na
campanha de corpo e alma e se autointitularam “A Turma do Chapéu”. E nesse
momento alguns analistas políticos já começam a olhara para
Amauri como uma possibilidade de vitoria, mas ainda apresentando uma
movimentação tímida e mais de observação.
Foi durante a Festa de Agosto que a campanha de Amauri começa a decolar, quando acompanhado pela então “Turma do Chapéu” faz passeios diários pela Praça da Matriz adesivando e contagiando as pessoas a usarem chapéus para irem à festa.
Apesar de ser vereador, Amauri não era
tão conhecido no município e priorizou no início a distribuição de adesivos com
a sua foto e do vice, que rapidamente se espalhou no peito das pessoas já
mostrando uma ampliação do apoio à sua campanha, mas ainda modesto.
A campanha do PMDBista centrou na
distribuição de um adesivo com a frase “Ai que saudade”, sem a identificação de
candidatura, remetendo aos tempos que ele fora prefeito municipal.
Esses dois adesivos disputaram
visibilidade e marcam o início da participação mais ampla da população nas
eleições com uma rivalidade sadia como se fosse disputa de campeonato de futebol.
Cada um torcendo para um time e com orgulho de expressar a sua opinião, coisa
que não é muito comum na política.
O Final da Festa de Agosto marca que
realmente haveria uma grande disputa a acontecer e Amauri cresce na opinião da população
ameaçando a supremacia do candidato PMDBista, o que é mostrado na matéria do jornal 5 de
julho iniciando a disputa nas mídias impressas, rádio e Internet.
Aqui tudo que acontece nas ruas são
informadas pela Internet. A população passa a acompanhar dia-a-dia os passos do
candidato Amauri. Assim reuniões, eventos, conversas formais e informais, festas,
enfim toda a sua agenda passa a ser pública na Internet. Essa estratégia se
espalha pela rede ganhando cada dia mais adeptos, o que passa a ser utilizada
também pelos outros candidatos. E com isso inicia uma disputa, agora virtual,
pela adesão de adeptos às fanpages dos candidatos Amauri, Naudiomar e Doriocan.
Nesse momento Marcão apresenta a sua desinência se unindo a Doriocan e Marconi
continua sua campanha timidamente não acompanhando essa disputa virtual.
Na fase virtual os discursos em
palanques dão lugar aos debates pelo Facebook, mostrando uma radical mudança na
forma de interação dos políticos com os seus eleitores. O que antes era uma interação
unidirecional pelos palanques e rádios, em que a plateia apenas escuta, passa a
ser uma interação multidirecional em que não há plateia, pois todos podem interagir
e dar a sua opinião. Destaco aqui que Facebook, Twiter, Blog não são redes
sociais, as redes sociais são formadas por pessoas que utilizam esses meios de
comunicação para interagir.
Isso coloca por terra as estratégias
tradicionais de campanha e força os candidatos a buscarem inovações e novas
formas de comunicação. Eles precisam se renovar, e isso pega a maioria dos
candidatos de surpresa. Quando dão conta do que está acontecendo, as redes
formadas em torno dos candidatos, apesar de serem lideradas por eles, assumem
vida própria tanto na Internet quanto nas ruas. Além de seguir os candidatos e
compartilhar os materiais de campanha, os apoiadores criam novos materiais que
rapidamente se espalham pela rede e pelas ruas. Criam boatos, piadinhas, charges,
frases de impacto em apoio ou em repudia aos candidatos. E isso toma uma proporção
tão grande que em alguns momentos chega a fugir do controle das coordenações de
campanha dos candidatos.
Nesse momento ainda não é possível saber
qual candidato possui maior apoio e inicia a fase dos impressos que é a
utilização de jornais de grande circulação para divulgação de resultados de
pesquisas eleitorais na tentativa de sobrepor os resultados alcançados na Internet. É quando a surpresa acontece, de 4 pesquisas oficiais divulgadas
pelos jornais O popular e Diários da Manhã, jornais de circulações estadual, em
duas delas Naudiomar aparece na dianteira e em outras 2 é Amauri Ribeiro quem aparece na
dianteira.
Vale aqui ressaltar que as pesquisas
eleitorais são validadas do ponto de vista metodológico pelo TSE, tendo
compromissando com a verdade. Sendo assim como que as duas pesquisas apresentam
resultados tão divergentes? A única
manipulação que pode acontecer numa pesquisa é na sua metodologia, dependendo
da forma que a pergunta é feita, da escolha regional para a sua aplicação e dos
filtros utilizados é possível tendenciar os resultados.
As pesquisas apresentadas por Naudiomar
tendem ao empate técnico com pouca divergência entre os candidatos, sendo 8% na
primeira caindo para 2% na segunda. Já as pesquisas apresentadas por Amauri
apresentam larga vantagem de 16% caindo e 11% na segunda, mas longe de
apresentar empate técnico. Resultados estes que ambos os candidatos defendem e
foram fruto de calorosos debates na Internet sobre a veracidade ou não dos
mesmos, o que só mostram que o resultado aida era incerto para ambos os lados.
Diante do impasse das pesquisas, os
candidatos partem para a fase de aglutinação. Naudiomar e Doriocan optam
pela realização de carreatas, uma estratégia tradicional de campanha e muito bem
sucedidas em momentos anteriores. Amauri sabendo da sua dificuldade em promover
uma carreata, ele inova mais uma vez realizando grande uma caminhada.
E esse certamente foi o momento decisivo
das eleições, pois ainda haviam cerca de 15% de indecisos na disputa. Naudiomar
realiza uma grande carreata, contando com apoio dos grandes produtores rurais,
declarando a presença de mais de 1000 carros, valor questionado por alguns que
diziam ter apenas 350 e muitos deles vindos de fora ou penetras interessados em
combustível. Amauri ainda temeroso com a capacidade de aglutinação, optou por
uma caminhada discreta, que sem precedentes alcançou tantos adeptos que
surpreendeu a todos, inclusive a ele próprio. A oposição reclamou pela presença
de muitas crianças na caminhada dizendo que criança não vota, ignorando a
presença de várias famílias inteiras. A coordenação de campanha declara que
compareceram mais de 1000 pessoas e alguns observadores dizem ter mais de 3000
dentre pedestres e alguns carros que, mesmo sem ser previsto, insistiram em seguir em
comboio.
Saber quantas pessoas participaram de
cada uma não é importante, o marcante dessa fase é que é impossível comparar
qual das duas aglutinações, uma grande carreata e uma grande caminhada fora a
maior. O fato é que a inovação da caminhada e o grande apoio trouxeram à tona,
pela primeira vez, o grande potencial iminente de vitória de Amauri Ribeiro. As
pessoas deixaram de temer pregar o 44 no peito ou nos carros e vários analistas
políticos já diziam nas ruas que a vitória era certa. Obviamente os
concorrentes perceberam isso, não dava para negar que Amauri Ribeiro assumira a
dianteira, tanto na Internet quanto nas ruas, sendo necessário à oposição
recuperar o prejuízo.
Inicia então a fase das madrugadas
sem lei onde panfletos falsos são lançados nas ruas na tentativa de
denegrir a imagem e a grande popularidade alcançada por Amauri Ribeiro. Restando
apenas 4 dias das eleições carros e motos jogam panfletos falsos com uma
suposta carta do atual prefeito Ricardo de Pina em apoio à candidatura de
Amauri de Ribeiro. Vale ressaltar que o atual prefeito passava, naquele momento, por uma enorme impopularidade devido às frequentes crises administrativas da sua gestão, o que inclui uma greve dos funcionários da prefeitura em pleno período eleitoral. Os panfletos imitavam a identidade visual de campanha, logos, cores e
até CNPJ do candidato e gráfica, na tentativa de confundir os eleitores.
Rapidamente a equipe de campanha de Amauri reage lançando notas na Internet, rádio e carros de som nas ruas e quando as pessoas acordam e deparam com os panfletos a resposta já estava distribuída. Isso mostra a importância da velocidade dos meios de comunicação e, em tempo hábil, a tentativa de difamação ficou escrachada como mais uma mentira dos adversários contando ainda mais pontos para a campanha limpa feita por Amauri Ribeiro, e está servida mais uma limonada.
Até hoje não se tem certeza de quem
realmente era mandante por trás da distribuição desses panfletos, a política não chegou a
nenhuma conclusão. E é aqui que inicia as madrugadas sem lei, a coordenação de
campanha de Amauri teve que articular uma equipe de voluntários para realizar
verdadeiras patrulhas nas madrugadas para interceptar e eliminar a distribuição
de panfletos noturnos já que a lei fecha os olhos perante a escuridão da
madrugada.
É importante destacar que o grupo de
apoiadores estava tão comprometido com o resultado que não foi difícil
conseguir 80 pessoas e cerca de 15 carros para patrulhar as ruas nas próximas 3
madrugadas. O resultado fui muito bem sucedido já que o grupo conseguiu coletar
todos os panfletos distribuídos nas madrugadas seguintes e no dia das eleições
ainda foi realizada uma operação de limpeza varrendo todos os santinhos e panfletos
jogados nas portas dos locais de votação. A gráfica clandestina de onde saiam os panfletos
fora descoberta na ultima madrugada, e como a polícia não podia intervir nas vésperas
das votações a atitude tomada foi montar guarda na porta do estabelecimento
para evitar a saída de novas remessas de panfletos para distribuição e, por se
tratar de um estabelecimento renomado do comércio local, prefiro deixar essa
informação no anonimato.
A cidade amanheceu limpa, a opração de
difamação fora completamente neutralizada e o grupo ficou mais unido e comprometido
com a vitória. E aqui a fiscalização foi mútua, carros de um candidato
fiscalizando o outro, e a polícia correndo de um lado para outro atendendo a
dezenas de denuncias por hora sem condições de fazer sequer um flagrante. O
fato de se ter dezenas de carros nas madrugadas atrapalhou também os
compradores de votos que amanheceram sem conseguir concluir a operação e cheio
de dinheiro nos bolsos. Fato que dizem ter inflacionado o valor dos votos, chegando
até R$ 350,00 na cotação máxima (mas não
sei até que ponto isso é verdade).
O dia amanhece e começa a fase de fiscalização contra boca de urna, os colégios abrem aos
eleitores e ainda tem gente nas ruas catando lixo, o que ainda rende uma
propaganda do tipo “a limpeza só está começando”. O grupo que trabalhou na madrugada não tem
descanso, e nem querem descansar. Eles se unem à equipe de outros 80 voluntários
que se dispuseram a trabalharem como fiscais nas salas de votação. Destaque para
o fato que são pessoas que nunca se envolveram com política e não apresentam
nenhuma filiação, possuindo como agregador apenas o objetivo de mudança, que
passava a ser um anseio não só do candidato em questão mas do grupo como um
todo que aumentava a cada dia.
E é com essa rede de pessoas formando um
grupo coeso e comprometido com o resultado, que iniciou com apenas 2 candidatos
(prefeito e vice), passando a 30 pessoas na conformação inicial, se expandiu
para cerca de 160 que trabalharam no ultimo dia de campanha, contando com no
mínimo de 1000 que caminharam por toda a cidade mostrando união e força, pelo menos 3000 que acessavam a fanpage semanalmente
(mesmo que muitos de forma anônima) é que foi possível virar essa eleição e
chegar ao final com 7302 votos contra 6457 do segundo colocado, representando
uma diferença ainda apertada de 5,5%.
E essa foi a formula mágica: a união de
um grupo de pessoas fortemente comprometida com um resultado de mudança da
política local, grande insatisfação da população com a falência das instituições
públicas, a comunicação facilitada pelo crescimento do acesso à Internet no
município, o histórico de trabalho ético de um candidato e o esforço demonstrado
no período eleitoral tentando um contato direto com o máximo de eleitores
possível.
Isso possibilitou a Amauri Ribeiro e
Claudiney darem uma lição para Piracanjuba e para o Brasil de que é possível
sim vencer uma eleição, quando se defende de fato a maioria, mesmo que não se
tenha o apoio econômico da elite e marca o fundamental papel da população articulada nas decisões eleitorais.











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