sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Redes sociais X Política

Antes de analisar a relação das redes sociais com a política é necessário entender o que, de fato, é uma rede social. Muitos acham que Facebook, Twiter, Orkut são redes sociais mas o que sempre ressalto é que as redes são formadas por pessoas. Muito antes do grande avanço das tecnologias de comunicação as redes já existiam, sempre existiram.

Um grupo social é composto por um conjunto de pessoas que possuem algum elemento em comum, que os unem e lhes confere unidade. Já uma rede é uma estrutura social composta por vários tipos de relações em que um indivíduo pode participar de vários grupos sociais ao mesmo tempo compondo uma estrutura dinâmica e tecnicamente ilimitada.


Cada ponto, cada membro de uma rede, pode apresentar uma infinidade de conexões com outros pontos e assim por diante. Isso transforma a rede numa metaestrutura social extremamente complexa e com grande potencial de articulação.
Rede
Grupo


Com o avanço das tecnologias de comunicação interativas, em especial a Internet, a comunicação entre as pessoas passou a ser mais rápida e dinâmica. As redes sociais passaram a ter um canal de comunicação mais eficiente e que permite a interação de pontos ou pessoas geograficamente distantes. Isso impulsionou o grande crescimento de sites de relacionamento como Facebook, Orkut e Twiter que passaram a interconectar pessoas em todo o mundo. E o reflexo disso pode ser observado em vários campos tais como na economia, no comércio, na educação e, por que não, na política.

Um exemplo bem recente do potencial das redes sóciais na política vem do Egito que está enfrentando uma série de protestos políticos há alguns meses. A causa desses protestos, que estão gerando atos violentos, está no fato de o país ser governado, de forma bastante autoritária, há mais de 30 anos, pelo mesmo presidente. Os rebeldes estão se organizando por meio da Internet contra as ações autoritárias do governo. Grande prova desse fato, foi a ordem dada pelo Presidente do Egito, Mubarakpara, para  cancelar o acesso às redes sociais, como Twitter e Facebook. Tudo isso se deve ao fato que ele percebeu que essas duas redes estariam divulgando de forma muito rápida as ideias da revolução que está acontecendo no país. Desse modo, ele estava perdendo o controle da situação no país.

Certamente, se houvesse Internet na época da Inconfidência Mineira, Tiradentes teria sido bem sucedido na sua tentativa de independência. Os inconfidentes tinham que se arriscar para se encontrar em reuniões secreta, às escondidas, para não serem pegos pelo governo. Bem coisa de Maçonaria mesmo, que na época exerceu fundamental importância para manter o segredo do que era discutidos nas reuniões tidas como conspirações pró-independência.

Os dois exemplos mostram a semelhança entre os movimentos em busca da liberdade que são separados por mais de 200 anos. Ambos apresentam motivações semelhantes. Ambos apresentam formação de redes sociais, e aqui, como exemplo, a organização das maçonarias como uma grande rede social que se perpetua até os dias atuais. O que difere os dois movimentos é o potencial de comunicação dessas redes. As reuniões escondidas dão lugar ao anonimato na Internet e conseguem alcançar um número muito maior de indivíduos.

 Tendo entendido que uma rede social é uma forma de organização social, complexa, autônima e composta por indivíduos que compartilham características ou objetivos comuns, podemos entender como aconteceu o movimento tido por alguns analistas políticos como revolução democrática na cidade de Piracanjuba, interior de Goías, onde um grupo de pessoas se uniu para eleger um prefeito sem base política, sem grandes recursos financeiros e sem apoio da elite local.

Obviamente uma rede social não pode ser forjada, criada por vontade ou interesse de uma pessoa ou um pequeno grupo. Se um poderoso tentar criar uma rede social, pode até conseguir influenciar algumas pessoas que estão mais próximas a ele. Porém o fator de unidade que é a ligação direta com esse indivíduo vai se enfraquecendo e se perdendo quanto mais a rede se distancia dele.

  Uma rede precisa ter um objetivo agregador que seja forte o suficiente para garantir a unidade do grupo e que a sua força seja renovada a cada ponto. E em Piracanjuba o elemento agregador foi a esperança de renovação da estrutura política local diante da estagnação econômica do município nas duas ultimas décadas geridas pela elite local. Engana-se quem acha que o fator agregador são os candidatos. Certamente Amauri Ribeiro foi quem melhor incorporou esse objetivo em sua proposta de governo, especialmente pelo fato de não possuir nenhuma coligação com a tradicional estrutura política local, que impulsionou a sua candidatura e a sua vitória nas eleições municipais de 2012.

A dinâmica da rede é complexa, autônoma e imprevisível. Antes a interação dos candidatos com seus eleitores se davam por meio de Rádio, TV e impressos, sendo uma comunicação unidirecional. Agora, com a Internet, a interação é multidirecional. O candidato pode até criar uma página, uma fanpage, campanhas publicitárias, mas nem toda a comunicação está sob o seu controle. Na Internet todos têm direito à palavra, a relação é horizontal, bem diferente das campanhas anteriores que apenas o candidato tinha o microfone nas mãos.

O fator “imprevisibilidade” também é importante uma vez que não se tem controle do que as pessoas publicam na Internet. Assim imagens, textos, fotos, gráficos, piadinhas e boatos se espalham rapidamente pela rede. Destaco novamente que a rede não se limita à Internet, tudo que acontece nela tem reflexo imediato nas ruas. Cheguei a presenciar algumas piadinhas que nasceram na Internet e eram retransmitidas por SMS para outros pontos da rede ou ditas oralmente pelas ruas. Para entreter a leitura, segue uma dessas piadinhas:

“O candidato A disse à sua esposa que no dia 8 de outubro ela amanheceria com o novo prefeito. Ela então respondeu:  Mas você vai deixar eu dormir com aquele chapeludo?” (Autor desconhecido, veiculado pela Internet, SMS e oral)

 Ainda falando de “imprevisibilidade”, este é um elemento que pode impulsionar ou afundar completamente um candidato. Outro exemplo marcante que, certamente, prejudicou muito a imagem e a candidatura do candidato PMDBista, foram os constantes ataques feitos aos candidatos adversários. Não se sabe ao certo se as pessoas que fizeram esses ataques estavam ou não ligadas à coordenação de campanha, mas faziam parte da sua rede de apoio.

Na tentativa de recuperar a liderança nas pesquisas, a rede de apoio em torno do candidato PMDBista lançou na Internet uma infinidade de boatos e mentiras sobre o candidato Amauri Ribeiro, alguns deles usando até perfil falso para impedir a identificação dos autores.  Até então uma estratégia de campanha muito comum, não fosse a imprevisibilidade da reação da rede. Como os boatos eram muito superficiais a coordenação de campanha adversária facilmente os desmentira e as duas redes iniciaram um exaustivo debate que resultou na fama de mentiroso ao candidato PMDBista. Assim o tiro saiu pela culatra e ainda garantiu mais limões para a limonada de Amauri Ribeiro que promoveu uma grande caminhada da "Paz contra as Mentiras".  


As redes são autônomas, mas dependendo do posicionamento dos candidatos eles podem influenciar, até certo ponto, a ação da rede. Amauri assumiu o compromisso de não ficar cutucando as feridas dos adversários e sempre que a sua rede de apoio fazia o contrário, ele ou alguém da coordenação de campanha, vinha a público pedir que esse tipo de atitude fosse evitado. Normalmente o pedido era atendido e assim foi possível, de certa forma, moderar e garantir o alinhamento da rede de apoio com as ações da coordenação de campanha. Porém o mesmo não aconteceu com a rede adversária, talvez pelo anonimato das pessoas que espalhavam os boatos, não parecia haver alinhamento com a estratégia central de campanha que era de demonstrar a experiência do candidato. Assim o candidato PMDBista não conseguiu conduzir de forma favorável a sua rede de apoio, na verdade pareceu mais ser conduzido por ela rumo à derrota.

Com o crescimento do acesso à Internet, quer queira quer não, redes sociais se formarão em torno dos candidatos. E isso pode gerar uma onda tão grande que determine o sucesso ou o fracasso de uma candidatura. Nunca antes na história a democracia fora tão ampla quanto nos tempos atuais e certamente a facilidade de interação da população levará a políticas a mudanças ainda mais profundas. Estratégias antigas precisarão ser renovadas pois o eleitor já não é mais o mesmo que antes.

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